• Ju Ferreira

Sobre a difícil arte da escolha

Atualizado: Mai 16

Como as nossas decisões repercutem no mundo por gerações



Essa semana terminei de ler um livro que estava na minha estante há bastante tempo: o “Violetas de Março”, da Sarah Jio, e esse livro me fez pensar muito sobre o poder das escolhas – e sobre como cada decisão que tomamos pode mudar o rumo de nossas vidas (e até mesmo alterar a vida das próximas gerações que virão depois de nós!).


Sou o tipo de pessoa que fica de mal humor se vou viajar e não tenho nada pra ler (mesmo que não dê tempo nem de abrir o livro), então comprei esse livro num aeroporto, faz vários anos, mas não tinha lido nem a primeira linha da primeira página. Esse mês olhei pra ele e me deu uma vontade grande de ler, então mergulhei.


A descrição do livro dá uma ideia da história.


Emily Taylor é uma mulher jovem e escritora de sucesso, mas não gosta muito de seu próprio livro. Também tem um casamento que parece ideal, no entanto ele acabará em divórcio. Sentindo que sua vida perdeu o propósito, Emily decide fazer as malas e passar um tempo em Bainbridge — a ilha onde morou quando menina — para tentar se reorganizar.


Enquanto busca esquecer o ex-marido e, ao mesmo tempo, arrumar material para um novo — e mais verdadeiro — livro, um antigo colega de escola e o namorado proibido da adolescência tornam-se seus companheiros frequentes. Entretanto, o melhor parceiro de Emily será um diário da década de 1940, encontrado no fundo de uma gaveta.


Com o diário em mãos, Emily sentirá o estranhamento e a comoção causados pela leitura de uma biografia misteriosa que envolve antigos habitantes da ilha e que tem muito a ver com sua própria história.


Assim como as violetas que desabrocham fora de estação para mostrar que tudo é possível, a vida de Emily Taylor poderá tomar um rumo improvável e cheio de possibilidades.


Acontece que quando lemos essa descrição, parece que o livro é um daqueles romances super previsíveis cujo final já sabemos antes mesmo de terminar o primeiro capítulo. Mas nada poderia estar mais distante da realidade.


A escrita da autora é gostosa e envolvente, e a história abriga mais camadas e mistérios do que eu supunha inicialmente. O diário traz um relato emocionante sobre personagens que a própria Emily não conhece – e claro que nesse momento, minha mente de Sherlock se pôs a tentar matar a charada, desvendar quem eram pessoas e como teria sido o desfecho daquela memória. E claro também, que tudo aquilo que eu imaginei lendo as primeiras páginas estava errado!!


Sarah Jio, vai revelando, pouco a pouco as faces, as personalidades e os dilemas de cada um dos personagens – os do diário da década de 40 e os da nossa época. E pouco a pouco fica claro como os acertos e erros e as difíceis escolhas do passado moldam o presente. Como nossas decisões podem alterar totalmente o nosso destino – e, por vezes, até o destino de muitas outras pessoas, por muitos anos.


Sim, o livro é delicado e lindo e poético e sim, recomendo muito a leitura (e a reflexão sobre a história), mas hoje eu queria me aprofundar um pouco num tema que ficou na minha mente por causa desse livro.


Escolhas.


Escolhas são tão comuns e de tal forma parte integrante da nossa rotina que muitas vezes nem pensamos nelas ou nas consequências que elas podem ter na nossa vida. Ou será que quando estamos diante do guarda roupa, de manhã, ficamos estressados pensando nas consequências da escolha daquela blusa azul? Acredito que não. Porque, de forma geral, tomamos esse tipo de decisão de forma quase inconsciente, sem pensar muito.


No entanto, existem escolhas que demoramos bastante tempo a tomar, pesando prós e contras e tentando simular o seu impacto nas nossas vidas. Mas, o que é que leva algumas escolhas a serem mais “óbvias” ou “automáticas” e outras levarem mais tempo e demandarem mais atenção?


Antes de mais nada, vamos entender o processo de decisão para separar esses dois tipos de escolhas. O nosso cérebro tem algumas estruturas responsáveis por decidir: uma delas, o sistema límbico, é a porção do nosso cérebro que é responsável pelas emoções e pelos comportamentos sociais. Essa é a parte que reage aos estímulos do ambiente, é intuitiva e impulsiva. A outra estrutura que pode (ou não) se envolver numa decisão é o córtex pré-frontal: é aqui que acontecem os processos cognitivos e o planejamento, é esse o componente do nosso cérebro que executa aqueles processos que nós chamamos de “racionais”.


No livro “Rápido e Devagar”, o escritor e vencedor do prêmio Nobel de economia Daniel Kahneman chama a região cerebral que é rápida, intuitiva e automática de Sistema 1. Já a outra parte da nossa mente, mais lenta, deliberativa e lógica é denominada Sistema 2.


Por que temos essas duas formas de pensar? Não seria mais fácil responder usando o Sistema 2, racional, para todas as escolhas? Não, na prática vemos que a natureza é sábia e nos faz empregar cada um dos dois Sistemas no momento mais adequado.


O que ocorre é que somos, a todo momento, bombardeados com uma infinidade de estímulos e temos a necessidade de tomar uma série de pequenas decisões a todo instante. O celular toca, mas estamos ocupados finalizando um e-mail: atender, silenciar ou deixar tocar? Vai abrir o semáforo: dá tempo de correr e atravessar a rua? Peço ou não um cafezinho depois do almoço? Ou o exemplo que eu dei há pouco: com que blusa eu vou trabalhar? Se tivéssemos que ponderar, racionalizar cada decisão, não conseguiríamos realizar tudo o que fazemos todos os dias, viveríamos estressados, imersos em um mar de considerações, comparações e ficaríamos paralisados sem poder resolver nada: em resumo, não conseguiríamos viver.


No entanto, (ainda bem!), não é isso que acontece conosco: nos momentos em que temos que tomar decisões “fáceis”, entra em cena o nosso Sistema 1. Silencio o telefone, termino o e-mail, espero pra atravessar, peço o cafezinho depois do almoço (mas não depois do jantar!) e escolho a blusa azul sem pensar duas vezes.


Mas o que são essas decisões “fáceis” que tomamos a cada momento? Basicamente, são decisões que tomamos com base em hábitos que temos (por exemplo, se faço o mesmo caminho para ir para casa todos os dias, não penso para virar à direita em determinada rua, parece que estou dirigindo “no automático”), em crenças arraigadas (como, por exemplo, ensinamentos que recebemos dos nossos pais na infância e seguimos praticando, sem pensar muito se fazem sentido para nós no momento presente), ou em impulsos (quando nos deparamos com algo que nos provoca uma emoção intensa e uma necessidade de responder imediatamente, e assim temos uma resposta impulsiva).


Daniel Kahneman explica ainda que, embora seja o Sistema 1 que possibilite a nossa existência, ele às vezes se engana e nos faz tomar decisões equivocadas. Isso acontece por causa de uma memória que afeta nossa percepção de uma situação, ou algo que desperta um sentimento forte e nubla a nossa capacidade de pensar racionalmente.


Voltando ao livro “Violetas de Março”, vemos que é exatamente isso o que ocorre. Na história do passado, aquela do diário misterioso, uma mulher toma uma atitude repentina e definitiva, usando apenas o Sistema 1, e isso muda toda a vida – a sua e a dos que estão à sua volta.


Uma decisão instintiva pode acontecer a cada um de nós. Ou não conhecemos alguma história de uma pessoa que, por um momento de raiva, perdeu o amor de sua vida, ou que teve medo na hora H e que, por conta disso, desperdiçou a chance de viver uma experiência única?


E qual seria o jeito de minimizar esses deslizes do Sistema 1 e tomar as decisões mais acertadas para a nossa vida? Controlar a impulsividade é uma das dicas mais acertadas. Quando você se deparar com uma escolha que pode alterar o curso da sua vida, é preciso res-pi-rar!


Em geral, não há pressa – e não há porque responder instantaneamente, com a primeira ideia que lhe vem à cabeça. Lembre-se de que pode ser um truque (ou um erro!) do Sistema 1. Então pare, considere as alternativas, reflita, pondere... E depois decida! (até porque um outro engano que se pode cometer é não escolher nada, ficar paralisado entre dois possíveis caminhos – isso nunca é bom!)


Decida de um jeito que possa deixar você orgulhoso do seu veredito.


Decida de um jeito que permita a você, no futuro, olhar para trás e se sentir feliz.

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